Entrevista com Zeh Fernando no FWA (em português)
Saiu, na semana passada, no site do FWA uma entrevista com o flash developer Zeh Fernando, que está, atualmente, na agência nova-iorquina Firstborn Multimedia.
Zeh já trabalhou na Grafikonstruct, na Gringo e fez diversos trabalhos para a Firstborn, antes de ir trabalhar lá.
Além disso, ele trabalha como developer desde 1994 e foi o criador do Tweener(Caurina), uma classe utilizada no Flash para facilitar animações.
Confiram abaixo a entrevista traduzida:
“O amor é importante, porra”
Meu nome é Zeh Fernando. Eu nasci em 1977, em São Paulo, Brasil. Eu tenho trabalhado com desenvolvimento de interface desde 1994, inicialmente com aplicações de CD-ROM em multimídia e gerenciamento de sistemas de database, e então com HTML e outras tecnologias, quando começou a exploração comercial da internet. Eu tenho trabalhado com Flash desde a versão 2, e desenvolver Flash/ActionScript tem sido meu foco pelos últimos 6 anos. Hoje em dia eu trabalho como developer sênior para a Firstborn Multimedia, em Nova York.
FWA: O que você faz para se inspirar?
Eu sou um bom exemplo do velho nerd, no sentido que eu curto livros e filmes de ficção cientifica, revistas em quadrinhos, videogames e heavy metal. Eu acredito que essas coisas me ajudam. E eu acho que existe espaço para o velho “tudo à minha volta” como resposta.
FWA: Por favor, liste 3 dos seus sites favoritos.
Existem muitos sites que eu uso porque são práticos pra mim, mas eu devo mencionar com méritos para a categoria RIA…
- Labuat, Pintando una Canción – Eu penso que essa é a razão porque o Flash existe.
- Aviary – Não é só um site, mas um grupo de aplicações que podem ser executadas online. Há uma pequena revolução acontecendo aqui que poucas pessoas vão entender ou concordar, mas antes de ser forçado em usar aplicações “online” num ambiente particular (na faculdade), e fazer isso de maneira certa, eu estou confiante para o que virá no futuro.
- O FWA – Bom, eu o confiro para saber de boas notícias sobre novos sites, então…
FWA: O que você se orgulha de ser seu maior feito?
De certa maneira, eu acredito que criar alguns projetos de open-source que ganharam mais popularidade que eu esperava – MC Tween e Tweener – porque é por isso que as pessoas se lembram de mim, ou talvez finalmente por ser contratado pela Firstborn e trocar São Paulo por Nova York para trabalhar como developer sênior. Mas ao mesmo tempo em que estou feliz com isso, pessoalmente, eu acho que meu maior feito foi criar o grupo ANSI Art em 1996, chamado “Maiden Brazil“. Isso é uma coisa que as pessoas vão achar difícil de entender, mas era basicamente um bando de pessoas criando textos coloridos em telas (o chamado ANSI Screens) para dial-up BBSs – isso foi todo o ódio daquele tempo, antes de a rede começar. A razão de isso ter sido um feito tão grande é porque o grupo foi criado sem muito pretexto. Eu não estava tentando fazer nada alem de criar o meu ANSI Screens no meu computador e colocá-lo no cenário artístico da ANSI. Eu consegui algum reconhecimento, alguns bons artistas locais de ANSI/ASCII se juntaram ao grupo, e tudo terminou sendo uma espécie de lição de vida pra mim. Por um lado, foi uma introdução à uma comunidade mais ampla – o cenário artístico de ANSI, parecido com o demoscene, foi bem grande (pelo menos em alcance). Foi o que me levou a começar a pensar globalmente, e a começar a ter amigos por todo o mundo – isso pode parecer idiota hoje, mas naquela época, era muito louco ter amigos do outro lado do planeta. Pessoas que eu costumava falar todos os dias pelas redes IRC e BBSs. E, também, foi o que me fez perceber que eu podia ter tido algum impacto fazendo o que eu gostava de fazer e arrumar emprego por ai – que você pode fazer sozinho. Existe um conto de fadas aqui sobre um adolescente nerd se aventurando por comunidades de pessoas diferentes, culturas diferentes e línguas diferentes, e descobrindo seu estilo junto. É uma historia longa e provavelmente só faz sentido para meia dúzia de pessoas em todo o mundo, então vou parar por aqui.
FWA: Com que software você não poderia viver sem?
Por mais louco que parece (já que eu desenvolvo em Flash): Adobe Photoshop. Esse é um dos programas que os menus e ícones estão provavelmente gravados no meu cérebro depois de tantos anos usando. Depois de tanto tempo, é provavelmente o único programa que eu continuo abrindo o tempo todo quando eu estou no computador.
FWA: Que projetos você tem em mente?
Depois de trabalhar para a Firstborn por 2 anos, eu finalmente estou trabalhando em um grande projeto. O que eu estou agora é um projeto do novo website da Aflac´s – uma mistura interessante de HTML/Ajax e Flash. O Flash é usado para apresentar um conteúdo de maneira fashion, e é algo que é bem divertido de desenvolver.
FWA: Quais são as 3 melhores empresas de design pra você?
Em geral, no campo das interfaces interativas para a web: Firstborn Multimedia, Big Spaceship, e Gringo Interactive. Mas tem algo que eu realmente amo sobre a maneira minimalista que empresas como a Group94 e a Grafikonstruct têm, embora, eu seja aquele idiota que ignora a pergunta e faz uma lista com um total de 5. Mas isso é porque eu tenho um coração grande.
FWA: Que efeitos de SEO as suas novas criações têm?
Bom, eu não trabalho com SEO diretamente, então eu não tenho certeza se posso comentar sobre isso. Eu penso que meu trabalho é criar experiências engajadas pelos usuários – engajadas no sentido que segure a atenção dos usuários e faça ele ou ela perder noção do tempo quando eles interagirem com algo que eu ajudei a criar. O efeito que meu trabalho pode ter é em aumentar o tempo que alguém passa (de maneira positiva) em um website ou em algo interativo. Nisso, eu realmente não posso dar em números já que é difícil de medir, mas eu acredito que é um impacto positivo.
FWA: Quem é o seu público?
Quem quer que o cliente queira que seja. Frequentemente é alguém que os clientes querem impressionar (ou eu espero que seja).
FWA: Que área o design ainda sente falta?
Eu acho que a parte humana. Nós falamos muito sobre boatos que esquecemos por que estamos fazendo o que fazemos, mesmo que as vezes as pessoas digam ou acreditem que estão focando no usuário. Eu vejo as pessoas falando em substituir a tecnologia A pela B – tipo, AJAX versus Flash – e então, frequentemente eles vão terminar com algo que mantêm o mesmo problema do original, se não apresentar uma nova gama de novos problemas. Nós ficamos encantados com a promessa de gloriosos e brilhantes novos brinquedos e não queremos ver os seus defeitos. Esquecemos que tem um mundo lá fora que não liga para qual set de siglas esotéricas nós estamos usando em baixo do capô. Tem algo a ser dito sobre ter uma tecnologia melhor, claro, mas quando você está tornando o seu trabalho dez vezes mais difícil só para trocar isso por um senso imaginário de realização pessoal, talvez só porque você está contra algo que já funciona bem, não é saudável nem para você, nem para seus clientes.
FWA: Como era o seu primeiro site? Ele ainda está no ar?
Era uma página no GeoCities que entrou em 1996. Era uma “personal web page” com fotos, lista de CDs que eu tinha, uma lista de convidados, um contador, um letreiro, e todas essas besteiras sem uso dos anos 90. Não tinha nenhum GIF animado de explosões, mas era bem idiota. Ainda está no ar, mas de jeito nenhum eu vou te passar esse link. O GeoCities sairá do ar em breve – mal posso esperar pra ver aquilo desaparecer pra sempre.
FWA: Você já escreveu algum livro, se não, você tem algum plano?
Eu contribuí com alguns capítulos dos primeiros livros “Flash Hacks”, da O’Reilly Media, mas foi só. Eu não acho que vou escrever algum livro – já existem muitos livros bons sobre desenvolvimento em Flash. Eu acredito que minhas forças estão em realmente criar algo do que dizer as pessoas como elas devem usar. Se eu realmente escrever um livro – eu adoro escrever – ele provavelmente será um livro de contos e crônicas fictícias sobre tudo e nada, escrito em português, e publicado por mim mesmo. Vale dizer, que seria algo que só eu estaria interessado em ler.
FWA: Qual foi a coisa mais difícil que você fez em Flash? Quanto tempo você levou? Ainda está online?
Eu acho que foi a funcionalidade autocolante que eu criei para um cliente de área da Agência Tudo, para a Gringo Interactive, há uns dois anos atrás. Não era o código mais complexo do mundo – é basicamente a mesma funcionalidade de “Page flip”, mas de qualquer ângulo com adesivos destacáveis de diferentes formatos – mas eu tive alguns problemas em certo momento e não tinha muito tempo para resolvê-los. Eu acho que no fim das contas, não é questão de quão difícil alguma coisa é, mas quanto tempo se tem para resolver. Nessa questão, eu tive que correr um pouco então o código não ficou perfeito, mas eu tive alguns problemas pra resolver tudo.
FWA: Você acha que o Flash veio pra ficar?
De certa forma, definitivamente. O Flash era a primeira plataforma de software que permitia os criadores a facilmente criar animações ricas e interativas para todos os usuários, então tudo que o Flash trouxe e ainda traz é algo que as outras plataformas ainda tentam adaptar. Mas por outro lado, você não pode prever o future. Quando eu comecei trabalhando com desenvolvimento de interface, Flash não existia e eu não poderia prever que eu estaria trabalhando com algo assim 15 anos depois. Eu amo o Flash, mas depois de ter trabalhado com ele por mais de uma década e ver ele ser transformado radicalmente tantas vezes, é como se o nome não importasse tanto assim. Eu acho que o que nós chamamos de desenvolvimento RIA é a coisa que está aqui para ficar e ele vai se tornar cada vez maior com o tempo, mas o nome em si é irrelevante. Mesmo se for Flash ou ActionScript, vai ser um Flash diferente e uma linguagem diferente em alguns anos. Com similaridades, mas mesmo assim existem similaridades entre o ActionScript, Java, e C#. Ficar marcado por um tipo de marca não é tão saudável, eu acho.
FWA: Qual é a sua opinião sobre o ensino de design gráfico? Você acha que alguém pode entrar no mercado sem experiência acadêmica?
Esse assunto é muito especial pra mim. Se eu acho que alguém pode entrar no mercado sem educação acadêmica? Sem dúvida. Mas se eu acho que fazer a faculdade é uma coisa boa? Sem dúvida. Eu sempre fui um duro crítico dos degraus de requerimentos para certos empregos, porque muitos assumem que automaticamente prova que você é melhor. Ao contrário, só ter um diploma ou qualquer outra forma de certificação muitas vezes significa pouco mais que a pessoa teve mais paciência, mais tempo, e algum dinheiro pra gastar. Eu mesmo sofri preconceito de algumas empresas no passado por que não fiz faculdade, mesmo se meu conhecimento fosse comprovadamente maior do que o esperado, e eu sei que essa situação não é muito incomum. Mas também, eu voltei pra faculdade há uns 4 anos atrás – quando eu tinha 26 anos – para finalmente ter um diploma. Era uma mistura de experiência (para eu ter uma base melhor para criticas sobre sistema) e um desejo de aprender algo novo. Eu consegui meu diploma de bacharel em Design de interface Digital em Dezembro, e conseguentemente, eu mudei de posição. Enquanto eu ainda me oponho a diplomas como requerimento básico – em nosso campo de trabalho, um portfólio e habilidades comprovadas falam mais alto – eu acredito que ainda existe uma boa experiência a se ter na faculdade para aqueles que são espertos o suficiente de usar isso pra própria vantagem. Essa certamente não é a norma, mas eu honestamente acredito que eu sou uma pessoa melhor, e um profissional melhor, depois de ter passado 4 anos na faculdade – mesmo tendo feito isso tão tarde. De fato, no meu caso, eu acho que foi uma grande decisão porque eu fui capaz de ver os problemas com um fundo mais forte, e absorver tanto mais do currículo escolar do que eu normalmente fosse se tivesse acabado de sair do ensino médio. Pra resumir, um diploma de faculdade não é isso tudo. Mas é algo muito bom. E eu falo mais sobre isso aqui: http://zehfernando.com/2008/the-end-of-the-end/.
FWA: Como você aprendeu tanto sobre o Flash e técnicas de design e você pode dar algum conselho a quem está começando?
Tentando. E dando tempo ao tempo. Meu conselho é olhar somente o que você quer. A verdade está lá fora. O Google é a minha única fonte quando eu fico travado em um problema. O Flash development é uma grande comunidade e você pode achar discussões e soluções sobre quase tudo que existe online. As pessoas querem aprender rápido com cursos relâmpagos e coisas do tipo, mas eu não acho que isso funcione. Eu acho que o mesmo vale pro design. Você tem que levar tempo para ver o que funciona e o que não funciona. Não existem tutoriais pra isso. Se você levar o tempo certo e focar no que quiser fazer, as coisas vão dar certo aos poucos.
FWA: Qual foi a coisa mais cara que você comprou na semana passada?
Eu acabei de me mudar pra Nova York e ainda estou entupindo a minha casa com móveis, então eu acho que foi o meu sofá. U$800 no total para um sofá modulado da Ikea.
FWA: Que tipo de roupa você usa quando trabalha no Flash, basicamente você é um homem de marcas?
Aquela que me deixa confortável. Quando estou trabalhando em casa eu costumava fazer isso com a pior e mais velha roupa que eu tinha, e sem sapatos. Agora, eu estou num escritório, então isso não funciona mais assim, então provavelmente só jeans e uma camiseta. Sem marcas importantes.
FWA: Alguma frase ou pensamento?
“O amor é importante, porra”. Recentemente vi escrito num grafite em algum lugar de São Paulo [Fotos do grafite aqui].










